Saiba o perigo da depressão após a aposentadoria

aposentadoria

Mais do que nunca o ser humano na sociedade contemporânea dedica-se ao trabalho. E muito. Até já inventaram o termo “workaholic” que é uma gíria em inglês que define um indivíduo viciado em trabalho, que trabalha compulsivamente e que é dependente de sua atividade.

Trabalhava-se intensamente nos tempos atuais por alguns motivos, como por anseio de melhor remuneração, conquista de objetivos pessoais e profissionais, por vaidade, ganância ou simplesmente pela necessidade pessoal de autoafirmação. Não é difícil encontrar um workholic em seu ambiente de trabalho.

Esse contexto simples de ter-se uma profissão, passar a exercê-la em plenitude e obter reconhecimento bilateral, bem como uma boa remuneração, constitui-se numa esfera de atribuições e recompensas na qual somos lançados no limiar da fase adulta, e nela permanecemos por longos anos de nossa efêmera existência. Essa longa permanência não nos prepara, em momento algum, para o rito de passagem que podemos chamar de aposentadoria – outra esfera que não conhecemos sequer sua melhor face.

A estruturação da vida obriga-nos a vivenciar a turbulência do trabalho e todas as suas delícias e desgostos. Não temos outra opção em nossa existência. E o que agrava essa submissão é o fato daquela esfera do parágrafo anterior não nos ensinar e ainda nos cegar em relação ao que iremos viver e enfrentar na esfera da aposentadoria. Não temos condições de imaginar e muito menos de conhecer antecipadamente os obstáculos que enfrentaremos tão divergentes e diferentes em relação aos que enfrentamos na jornada chamada trabalho.

Não quero nessa breve introdução atemorizar o leitor, não é essa a intenção. Objetiva-se demonstrar o quanto estamos despreparados para um período que deve e pode ser um período maravilhoso em nossa vida, desde que devidamente esclarecidos em relação a ele e suas peculiaridades e, consequentemente, preparados para suas possíveis armadilhas.

 

 

 

 

 

 

 

Uma pesquisa publicada em 2013 revela um dado surpreendente e que nos alerta em relação a um dos maiores perigos que pode surgir por ocasião do advento da aposentadoria na vida de um indivíduo. O Institute of Economics Affairs (IEA), sediado na Grã-Bretanha, revelou que a aposentadoria pode elevar em 40% as chances de um indivíduo desenvolver a depressão, além de aumentar em 60% a possibilidade do aparecimento de um problema físico.

Aquele fato que era para se tornar a ocupação do pódio da vida pode ser tornar o assentar numa cadeira de tormentas e dores. Lógico que nenhum de nós deseja isso em nossas vidas, contudo devemos desenvolver uma mentalidade e hábito de praticar e difundir conhecimentos e ações que se não eliminem, pelo menos minimizem os percalços que a chegada da aposentadoria pode nos trazer.

Todo esse contexto de dor e sofrimento decorre da falta de preparação psicológica e financeira que a grande maioria das pessoas apresenta. Infelizmente, a aposentadoria enquadra um fator predisponente para quadros depressivos, assim como o luto e a perda da autonomia e independência por doenças específicas. Na faixa etária em que as pessoas se aposentam existe uma maior prevalência de perdas de entes queridos, além de causas secundárias de depressão, como uso de medicamentos, doenças endocrinológicas, neurológicas e infecciosas.

 

 

 

 

 

 

A aposentadoria para a maioria das pessoas representa psicologicamente um oásis em sua vida. O trabalhador, desde o operário ao executivo, almeja a aposentadoria como não tão somente uma fase de descanso, de repouso para seu corpo e sua mente, mas principalmente como uma válvula de escape às tormentas e desgostos que sua atividade remunerada lhe traz, por mais satisfatória que seja.

Mas o atingimento dessa fase e a visualização de suas benesses e agruras não são permitidos muitas vezes pelo fato do indivíduo estar muito envolvido no mercado de trabalho e preocupado com o consumo e sustento de sua família. A primeira esfera que me referi desvia sua atenção e preocupação com a aposentadoria que vivenciará possivelmente na terceira idade.

Contudo, o indivíduo deve e pode superar a passagem desse rito com um adequado e antecipado planejamento financeiro e emocional, ação ampla e consciente que lhe permitirá gozar de bons e saudáveis momentos de alegria e felicidade durante o descanso tão almejado.

Ele deve encarar a aposentadoria não como um período exclusivamente destinado ao descanso e sedentarismo. É nesse pensar errôneo que a depressão e suas “garras” encontram ponto de apoio para seu desenvolvimento. A aposentadoria é a oportunidade de estar livre para se dedicar a projetos novos, almejados e inesperados. É essencial estar preparado para que essa transição seja realizada da melhor maneira possível para que não seja um período de frustração, mas um caminho de realizações e experiências prazerosas.

Um precoce e bom planejamento pessoal e emocional propiciará o indivíduo encontrar e gozar do oásis que esta fase pode lhe oferecer. Um fator coadjuvante ao sucesso dessa fase é o suporte dado por familiares e amigos.

 

 

 

 

 

 

Apesar da prevenção da depressão não estar muito bem elucidada cientificamente, já ficou esclarecido que a ausência das atividades do trabalho, a falta de atividade prazerosa e gratificante podem levar o surgimento dessa enfermidade. O não exercer a atividade de trabalho; a perda da convivência com os colegas e amigos do ambiente de trabalho; o afastar das responsabilidades que lhe eram afetas, as atenções que lhe eram dispensadas por superiores, colegas e subordinados; os reconhecimentos pessoais e profissionais se constituem em aspectos relevantes na vida profissional do indivíduo que devem ser compensados por outros fatores, outras atividades.

Os primeiros sintomas que indicam o início de algum problema são a queda na motivação, o sedentarismo, o estresse e a falta de contato com os amigos e familiares. Na maioria das vezes, a solidão surge devido ao término do trabalho e a perda de relações com os amigos e colegas.

A perda de contato com as pessoas fora do círculo da família é uma das principais causas para o aparecimento dos sintomas da depressão. As pessoas vivem 75% do tempo em função do trabalho e quando elas deixam essa ocupação perdem vínculos e relações de amizade e coleguismo. A maioria das pessoas na atualidade não se prepara para a aposentadoria, então quando ela chega, não tem nenhuma outra atividade programada.

A depressão apresenta várias manifestações, mas no caso da aposentadoria particularmente verificam-se os seguintes sintomas e sinais:

– Apatia;

– Falta de motivação emocional e física;

– Diminuição ou aumento do apetite;

– Tendência autodepreciativa;

– Perda ou ganho de peso significativo;

– Confusão mental;

– Alteração do sono;

– Pensamentos recorrentes sobre morte, como consequência de familiares e amigos na mesma fase da vida terem vindo a óbito.

Se alguns desses sintomas e sinais são apresentados pelo indivíduo, possivelmente ele necessita de apoio emocional e tratamento. Não se deve aceitar a depressão como uma parte inevitável da vida/aposentadoria. A depressão tem tratamento e o médico deve ser procurado o quanto antes.

Algumas ações muito proativas que ajudam a prevenir e afastar a incidência de depressão na aposentadoria:

1ª – Planejamento da aposentadoria – Esse fator é fundamental e precisa ser executado o quanto antes. Um planejamento consciente, razoável, tanto no pleno emocional como financeiro permitirá ao indivíduo e a sua família sofrerem menos com o impacto dessa mudança, afinal ele deixará de ser uma pessoa “ausente” durante a maior parte do dia, para se tornar uma presença constante. Isso requer compreensão, atenção e carinho de todos, sem exceção.

2ª – Compreensão das próprias limitações – É necessário fazer uma reflexão profunda e avaliar os conceitos importantes que permeiam a faixa etária após os 65 anos. Existem necessidades físicas e psicológicas que precisam ser consideradas, como por exemplo, ao envelhecer temos dificuldade de subir escadas, então seria interessante planejar mudar de casa quando se vive em um sobrado, caso seja necessário em função do perfil do aposentado.

 

 

 

 

 

 

 

3ª – Qualidade dos relacionamentos afetivos – Estudos apontam que a socialização está diretamente relacionada à qualidade de vida e ao envelhecimento bem-sucedido. Por isso, é importante que as pessoas invistam e mantenham seus relacionamentos pessoais, superando problemas de relacionamentos familiares e amorosos.

4ª – A religião e crença – A prática religiosa, a intensidade da fé neste período são elementos fundamentais de amparo ao aposentado. Ele ficará em algum momento sozinho com seus pensamentos, aflições, e ansiedades e nesses momentos a fé, a crença, é fundamental para a permanência de seu equilíbrio emocional e psicológico.

5ª – Atividade física – Exercícios físicos contribuem para a menor incidência de depressão. Em geral, é muito recomendada a prática de atividade física que traga bem-estar para o indivíduo, que estará menos suscetível a perda de força muscular, dificuldades com locomoção e dores crônicas. A prática de exercícios físicos regularmente provoca a liberação de endorfina, o que promove a sensação de bem-estar e contribui para diminuir o risco de depressão. Além disso, melhora a qualidade do sono e a autoestima. O maior objetivo dos exercícios é prevenir o desaparecimento da independência e autonomia que o envelhecimento pode ocasionar.

6ª – Outros fatores relevantes – Também são levantadas questões sobre planos de saúde, seguros de vida, manutenção de atividades sociais, propriedade de bens, herança. Uma boa ação é a consulta geriátrica, a qual oferece um aconselhamento de como envelhecer e programar o período após a aposentadoria.

 

 

 

 

 

 

 

Benefícios que este assunto pode proporcionar ao leitor

Mais algumas ações e medidas que podem ajudar no combate à depressão durante a aposentadoria:

Faça um planejamento financeiro – A preparação para a vida após aposentadoria deve começar bem antes dessa fase chegar. Planejar como poupar dinheiro e ter investimentos que completem a renda para ter o estilo de vida que deseja e tranquilidade ao se aposentar são medidas providenciais.

Tenha um hobby – Faça jardinagem, escreve, leia livros, pinte quadros, faça artesanato, faça aulas de dança, cozinhe, seja voluntário em algum projeto. Pense em alguma atividade que lhe proporcione prazer e que possa fazer parte do seu dia a dia depois que deixar de trabalhar. Ao transferir o foco do seu trabalho para um hobby, você se sente útil e pode conhecer novas pessoas.

Evite a solidão – Sentir-se sozinho é um dos principais fatores de risco para a depressão após aposentadoria. Portanto, é muito importante cercar-se de amigos e familiares que ajudam a minimizar a solidão e a sensação de abandono. Faça um curso, pratique-o, viaje se possível, promova refeições e encontros de família e de amigos.

Não tenha por que envergonhar-se de envelhecer – Aceitar a idade é uma atitude essencial e fundamenta para que o indivíduo sinta-se bem consigo mesmo e para que aproveite a vida após aposentadoria. Admitir que o corpo solicita descanso e cuidados, e valorizar o conhecimento e a experiência são atitude relevantes para uma aposentadoria saudável e satisfatória.

Ter uma vida social equilibrada – Dentro do possível tenha uma vida social regular. Encontrar-se e promover encontros com familiares e amigos próximos tem papel decisivo no tratamento desse tipo de doença. Cabe a eles estimular o aposentado a participar de atividades como bingos, grupos de dança, artesanato, festividades religiosas, costura ou atividades esportivas.

Passeios turísticos e viagens costumam trazer resultados positivos na integração social com outras pessoas da mesma idade, além da possibilidade de visitar novos lugares.

Idas ao cinema e ao teatro, também são boas opções principalmente, por conta da facilidade da meia-entrada. A maioria dos idosos não sabe dos seus direitos, como os descontos e a meia-entrada em ingressos. É importante que isso seja estimulado para que o aposentado comece a ter um novo tipo de atividade ou hábito, no qual ele pode fazer outras coisas que antes não lhe eram possíveis.

Atuar no voluntariado – O voluntariado é visto como um bom aliado contra a depressão nessa fase da vida. O trabalho voluntário é importante porque além do indivíduo sair de casa e encontrar outras da mesma idade e até mais jovens, ele continua trabalhando ao ajudar alguém e isso o faz sentir-se útil, responsável de alguma coisa. Cursos para a terceira idade, grupos religiosos e bailes são formas de manter o contato social.

 

 

 

 

 

 

 

Robert Thomaz

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Robert

Robert Thomaz é escritor, poeta, autodidata, pesquisador, blogueiro. Dedica-se ao estudo e pesquisa de assuntos relativos à qualidade de vida, relacionamento intrapessoal, relacionamento interpessoal, saúde e bem-estar.

Website: http://sentimentoseletras.com.br

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