Conectado: Necessidade social ou uma nova síndrome?

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Perguntar se você está conectado hoje em dia é uma pergunta tão óbvia que chega a ser ridícula. Estamos, na grande maioria, hiper-conectados, ou seja, interligados com outra (s) pessoa (s) que pode (m) estar ao nosso lado – parece loucura, mas isso ocorre frequentemente – ou a quilômetros de distância, presentes em outro continente. Essa ligação instantânea ocorre pela internet, a tão conhecida rede mundial de computadores que foi criada inicialmente pelo Exército dos EUA e depois se expandiu pelo mundo, tornando-se uma natureza de emprego e uso global.

Estar conectado todo o tempo é algo trivial, colocar na “net” o que se está fazendo, comendo, onde se está, o que se está curtindo, com quem se está, se gostou ou não da festa ou balada, se a comida é boa ou ruim, se o café com a amiga foi legal, e por aí vai, são “necessidades” que surgiram em nossas vidas desde que o celular se espalhou e se tornou objeto relativamente barato e popular.

O celular, além do uso do notebook (computador), smartphone e tablet, permite-nos manter contato não somente com outra pessoa, mas ter acesso quase ilimitado ao mundo ao nosso redor (textos, fotografias, notícias, vídeos, músicas, informações de uma forma geral) através da internet, aspecto que passou a nutrir a curiosidade humana antes agonizante por não ter sua necessidade saciada de forma tão imediata.

Esta nova e crescente “necessidade” de estar conectado diuturnamente começou a trazer uma preocupação para a sociedade científica, que observou que as pessoas estavam deixando de usar o celular apenas como uma mera necessidade social e profissional, mas sim porque estão sofrendo de uma síndrome que atualmente é conhecida como nomofobiadependência específica no uso diário do celular.

A título de conhecimento, antes de aprofundarmos o assunto, cabe salientar que celular e smartphone são coisas distintas.

O celular não possui sistema operacional, isto é, tem apenas interfaces simples, limitadas às funções básicas do aparelho não se podendo instalar novos programas para aumentar suas funcionalidades. O celular é usado para se realizar tarefas mais simples como ligações, enviar mensagens, ouvir música pelo rádio FM, tirar fotos (em uma resolução menor), e gravar vídeos simples.

O smartphone possui sistema operacional multitarefa e multimídia e é indicado para quem realiza mais tarefas com o aparelho, como acessar a redes sociais, baixar aplicativos, jogar, instalar programas, etc.

 

 

 

 

 

 

 

Como você, tantas outras pessoas têm acesso ao mundo através de seu celular ou smartphone, isto é, estar conectado lhe possibilita ter acesso imediato ao andamento da vida de quem está longe e de quem está ao seu lado, como também a quase todo gênero de informação armazenada nos provedores da internet. Estar conectado em realidade nos mantém ligado mais a quem está longe do que a quem está ao nosso lado, criando assim um estado não consciente de isolamento, de solidão, de afastamento físico e social.

Esse estado de contato provoca uma falsa sensação de segurança, de companhia, de amparo e afeto a quem está conectado e também a quem está em contato do outro lado. Essa pseudossensação de necessidade de estar conectado oculta em si uma grave dependência emocional que emerge normalmente quando se retira o celular do usuário.

Pesquisadores da Universidade de Maryland, nos EUA, realizaram pesquisas para saber quais as reações de jovens de dez países, nos cinco continentes, quando afastados por 24 horas de computadores, smartphones, celulares e tablets. Os resultados das pesquisas foram reveladores e surpreendentes. Eles demonstraram ser portadores de uma síndrome que tem surgido e avançado pelo mundo conhecida como IAD ou futuramente DAI (Internet Addiction Disorder), sigla em inglês para distúrbio da dependência em internet. Ela também abrange a chamada nomofobia, dependência específica no uso diário do celular.

Resultados das pesquisas constataram que os jovens pesquisados manifestaram sintomas de abstinência no mesmo grau dos apresentados por quem é dependente de drogas ou de jogo, por exemplo, quando privado do objeto de sua compulsão.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Desnorteamento, ansiedade excessiva, coceiras pelo corpo, sensação de asfixia e outros sinais foram os apresentados pelos jovens que foram pesquisados. A ausência do celular ou smartphone na mão, na bolsa ou no bolso da roupa do (a) conectado (a) faz emergir estados de irritabilidade, ansiedade, nervosismo e inquietação. Estudos estão sendo realizados em todo o mundo para se conhecer melhor as causas e os efeitos da nova síndrome.

O uso abusivo do celular ou computador insere o indivíduo num modelo de frequência mental que não o aprofunda em nada. Esse modelo leva cria um ciclo de mania, seguido de um ciclo de depressão, que se repetem sucessivamente.

O uso do computador na forma de celular, smartphone ou notebook devido à facilidade de acesso e a gama de informações e opções voltadas ao conhecimento e entretenimento conduzem o indivíduo ao abuso e este à compulsão. Estar conectado se torna um vício, como se a pessoa estivesse viciada em cocaína. Podemos assim afirmar porque outras pesquisas revelaram que o vício digital aciona o sistema cerebral de recompensa, o mesmo estimulado pelo uso de drogas. Quanto mais se cede à compulsão, mais sensação de prazer o cérebro produz, levando a pessoa a um nível que ela não consegue mais ficar sem essa sensação, tornando-se dependente de seu objeto de compulsão.

Outro dado relevante levantado pelas pesquisas foi que adolescentes que apresentam déficit de atenção, fobia social e depressão também estão mais propensos a desenvolver o vício digital de estar conectado.

 

 

 

 

 

 

 

A dependência digital não é uma dependência facilmente reconhecida, como a das drogas ilícitas. Seu diagnóstico é verificado quando o indivíduo começa a apresentar prejuízos em sua vida pessoal, social ou profissional devido ao uso excessivo do meio digital. Em termos práticos equivale a dizer que na vida real o indivíduo pode vir a brigar com o seu cônjuge, namorado (a) pelo fato de ficar online mesmo com a insatisfação do outro, ou decair a qualidade de seu trabalho porque não se concentra na tarefa que lhe foi delegada.

Outra visão interessante a respeito do assunto é o fato de existir uma inusitada relação monogâmica do celular com o usuário. Este se sente impossibilitado de ser totalmente independente, de estar livre do objeto de sua compulsão. Ele “necessita” ardorosamente de tê-lo junto de si a todo o momento e instante. O celular torna-se uma “muleta digital” na qual o indivíduo sempre o usa quando está esperando alguém, quando está sem fazer nada, durante as refeições e até durante suas atividades de estudo e trabalho. O usuário foca sua atenção quase exclusivamente no aparelho, passando a encontrar grave dificuldade de perceber e controlar o tempo gasto com o uso do mesmo.

 

 

 

 

 

 

 

Algumas correntes de pensamento até pouco tempo mantinham a ideia do lobo solitário na sociedade, do indivíduo que buscava sua solidão por não se enquadrar nos parâmetros sociais. Hoje, entretanto, não há mais lobos solitários, todos estão conectados. Até o catador de recicláveis que passa na minha rua surpreendeu-me quando o vi usando um celular enquanto revirava o lixo do prédio em frente.

Embora nem todos sofram do vício digital – estima-se que 10% dos brasileiros enfrentem o problema – esse número pode ser ainda maior dada a velocidade com que a internet está chegando aos lares nacionais. Estar conectado tornou-se uma necessidade social e profissional, um meio de estar inserido numa sociedade que vive imersa num mundo virtual, um mundo onde suas fronteiras são desconhecidas.

É relevante apresentar alguns aspectos que caracterizam a compulsão pelo celular:

Alteração do humor – O uso abusivo do aparelho provoca no indivíduo a euforia ou o alívio de curto prazo;

Estado de necessidade – Ele precisa passar cada vez mais de tempo com o celular para obter o mesmo prazer de antes;

Conflito e discórdia – O uso excessivo provoca conflitos e brigas com outras pessoas;

Foco – O indivíduo não consegue permanecer sem o celular e não pensa em outra coisa senão nele. Demonstra indisposição e aversão em manter uma conversa com outra pessoa face a face;

Irritabilidade – Quando o indivíduo fica sem o aparelho demonstra-se nervoso, ansioso ou irritado;

Recaída – Na tentativa de diminuir o uso do celular, o indivíduo volta a usar o aparelho com a mesma frequência anterior ou numa intensidade ainda maior.

 

 

 

 

 

 

 

O contexto do vício digital de estar conectado se agrava quando o indivíduo tem estabelecida uma relação amorosa com alguém. Além de algumas necessidades serem atendidas pela net, acrescenta-se sua necessidade de estar perto, por mais tempo possível, da pessoa amada.

Quando se ama, a dependência emocional instiga a querer-se dividir a vida com o outro, a contar-lhe seus problemas, a partilhar desabafos e a desejar sua companhia em momentos especiais de alegria ou tristeza. Essa dependência emocional decorrente do amor acaba por abrir espaço para o surgimento da síndrome, de modo que o indivíduo não consegue perceber que está doente, que sofre de um vício digital, o qual reduz sua qualidade de vida e seus relacionamentos. Nessa situação torna-se mais complicado e mais difícil desenvolver o tratamento de um indivíduo que sofre de nomofobia.

Benefícios que este assunto pode proporcionar ao leitor

Embora a completa autonomia em relação à internet seja uma ilusão em vista que muitas de nossas necessidades sociais e profissionais atualmente somente são atendidas se estivermos conectados, isto é, estar conectado à rede é uma necessidade básica para nossa própria sobrevivência e conforto na sociedade contemporânea.

É importante que se conheça a configuração da síndrome. Não é fácil reconhecer os sintomas da dependência digital. Eles aparecem aos poucos, como qualquer outra doença, até estar plenamente instalados seus danos emocionais, sociais e profissionais à vida do indivíduo e àqueles que o cercam. Os sinais mais comuns verificados são:

– Mentir a respeito de quantas horas online permanece;

– Apresentar preocupação excessiva com algum tema ligado à net;

– Seu trabalho e suas relações familiares entrarem em rota de colisão com o abuso do uso do celular e o “atendimento” de sua necessidade digital, colocando seus relacionamentos em risco;

– Notória necessidade de aumentar seu tempo online para obter prazer e emoção;

– Permanecer conectado mais tempo do que o programado;

– Tentar reduzir o tempo na net sem conseguir;

– Irritar-se quando o acesso à rede for restringido;

– Manifestar irritabilidade, melancolia ou depressão.

As pesquisas constataram que a dependência digital é prejudicial a nós mesmos quando não dosamos devidamente o tempo online e atingimos níveis abusivos, ou quando o indivíduo apresenta déficit de atenção, fobia social e depressão.

Dependemos da conexão digital e se tornar totalmente independente dela é algo inevitável, porém é possível educar-se no sentido de não cair nas garras da síndrome, afinal ela é um vício e todo vício pode ser evitado, ou se contraído, ser controlado. Algumas medidas que nos possibilitam evitar o vício digital:

– Evitar que a dependência digital se alie ao sedentarismo. Praticar esportes e exercícios físicos ajudam a equilibrar o humor e afastam as causas da depressão;

– Evitar levar o celular para a academia ou durante a prática de esportes ao ar livre. Deixe-o em casa. Por mais que você tenha necessidade de estar conectado, o mundo não necessita de você como Superman ou Mulher-Maravilha para salvá-lo;

– Limitar a quantidade de horas online, tanto durante a semana como nos fins de semana, particularmente o uso de plataformas que simulam jogos e outros gêneros de entretenimento;

– Tente não permitir que o celular se torne sua muleta digital, seu “cigarro” companheiro na solidão. Se sozinho procure outras ações ou atividades que evitem o uso abusivo do celular. Uma medida é adquirir o hábito de carregar um livro de bolso e lê-lo enquanto se aguarda alguém para um café ou um lanche, ou enquanto se está na fila do caixa;

– Quando for dormir não leve para a cama seu celular. Deixe-o “dormir” em outro cômodo, como se ele fosse um filho grande, maior de idade e que não necessita de sua atenção e cuidado. Dormir com o celular no ambiente de descanso não é conveniente por dois motivos: Suas ondas de rádio prejudicam o “descanso” do cérebro, não permitindo que o corpo como um todo relaxe; e os toques sonoros – relativos à chegada de mensagens de todas as naturezas – também contribuem para a perturbação de seu sono;

– Tente não transformar o celular em uma extensão de seu corpo e de sua mente. Evite levá-lo para todo lugar que for. Conheço um amigo que reclamou reservadamente que sua mulher levava o celular para o vaso sanitário quando ia evacuar e lá permanecia por mais tempo que o necessário. Todos nós temos que nos policiar em relação ao uso do celular e da conexão digital. Esta deve ser uma necessidade e não uma escravidão.

 

 

 

 

 

 

 

Robert Thomaz

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Robert

Robert Thomaz é escritor, poeta, autodidata, pesquisador, blogueiro. Dedica-se ao estudo e pesquisa de assuntos relativos à qualidade de vida, relacionamento intrapessoal, relacionamento interpessoal, saúde e bem-estar.

Website: http://sentimentoseletras.com.br

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