O estupro é o crime mais traumático para a sociedade, por quê?

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Estupro é um crime hediondo, contudo a sociedade faz vista grossa para essa monstruosidade. Quando se fala em estupro logo se relaciona o aviltante crime à figura da mulher, porém esse crime oculto por significativa parcela da sociedade e autoridades mutila também crianças e jovens, de ambos os sexos.

O assunto não é polêmico no sentido da sociedade virar as costas para ele, num desdém vexatório e continuar na sua marcha carnavalesca, voltada e preocupada com a escassez de dinheiro, funk do fim de semana, com o samba das quintas-feiras, com cotidiana viagem ao trabalho, etc.

Mas porque o estupro é um crime em destaque na galeria da impunidade? O que faz crianças, jovens e mulheres marcarem seus corações com o ultrajante crime e viverem o restante de suas vidas com essa nódoa indelével?

Por que abordar esse assunto no blog? Por que a vítima pode ser você, sua irmã, filha, mãe, namorada ou amiga e, ainda, por que o estupro deixa sequelas indeléveis na vítima, afetando sensivelmente sua qualidade de vida, saúde mental e bem-estar.

Estupro é o Crime Traumático A

Anatomia de um Crime acobertado pela Sociedade

O estupro é um crime remoto, citado até no Código de Hamurabi – de 4 mil anos atrás – que prescrevia este ato como crime contra a propriedade porque na época a mulher estuprada sendo virgem era propriedade do pai. Outra peculiaridade deste código era quando o ato era praticado contra mulheres casadas, de modo que a vítima e o estuprador eram executados juntos em vista que o ato era considerado adultério.

Até o ano de 2002 a lei brasileira prescrevia que o estuprador caso se casasse com a vítima era inocentado de cumprir a pena do crime de estupro. Sem dificuldades se percebe “a miopia” dos legisladores e sua conivência em relação a um crime tão grave e as consequências de sua impunidade.

Segundo dados oficiais, cerca de 50 mil pessoas são estupradas todos os anos no Brasil. As próprias autoridades afirmam que os dados estatísticos não correspondem à realidade em função da baixa notificação dos casos. Estima-se que a realidade corresponda a dez vezes mais que o valor oficial, ou seja, temos todos os anos aproximadamente meio milhão de pessoas vítimas de estupro no país. É um valor muitíssimo alto para ser aceito pela sociedade e autoridades responsáveis pela ordem e segurança pública.

E porque motivo os dados estatísticos são tão distantes da realidade dos fatos? Embora o estupro perca para o assassinato em termos de percepção de crueldade, a sociedade e autoridades não o reconhecem devidamente como crime profundamente danoso à moral, aos bons costumes e principalmente à mente da vítima e seus descendentes. Esse desdém é manifestado pelo silêncio coletivo.

Estupro é o Crime Traumático B

Esse silêncio coletivo se caracteriza pela omissão das instituições que não entregam seus criminosos, pelas vítimas que não denunciam seus agressores por desacreditar na integridade da Justiça, pelos policiais que não investigam as acusações, por famílias que ignoram os pedidos de ajuda. Essa lamentável essa conivência consciente cria uma aura de invisibilidade em torno dos agressores de modo que, 90% dos casos de violência sexual, praticamente deixam de existir.

Esse silêncio coletivo se fundamenta justamente na percepção de crueldade. E o foco dessa percepção é a mulher, a principal vítima desse crime repulsivo. Quando uma mulher que foi estuprada decide romper o silêncio (a maior barreira é a que se forma em sua consciência – a barreira psicológica) e denunciar o crime, enfrenta um enorme calvário como a humilhação de ser questionada sobre a roupa que usava no momento do crime, se deu entender que desejava fazer sexo com o agressor, em que lugar estava quando ocorreu o estupro, se estava bêbada, se tinha alguma relação com o estuprador, se tinha muitos namorados ou parceiros sexuais e ainda, para aumentar seu desespero, conta com o espectro da desconfiança que ronda a mente de quem a ouve ou interroga.

Estupro é o Crime Traumático C

O estupro pode ocorrer em qualquer lugar, desde que o agressor o reconheça como propício para a consecução do crime. Pode ocorrer dentro de casa (na própria cama), numa festa, num carro, num motel, numa sala de aula, etc. Normalmente o crime ocorre no próprio lar, sendo o agressor parente próximo, como o pai, padrasto, amigo, namorado ou vizinho.

As pessoas e autoridades partem do pressuposto que a vítima se insinuou ao agressor, que ela mantinha algum relacionamento com o agressor e permitiu o crime, para depois buscar alguma forma de compensação ou ressarcimento. Agindo assim julgam a vítima juntamente com agressor, como se ela fosse partícipe do crime. Esse comportamento da sociedade e autoridades se configura num absurdo sem precedentes.

Estupro é o Crime Traumático D

A pessoa que é estuprada carregará essa nódoa em seu coração ao longo de sua vida e, mesmo que a oculte, ela causará reflexos em seus descendentes, de uma forma ou de outra, através de seus comportamentos e atitudes. Os danos são muito maiores do que a maioria das pessoas pensa ou imagina.

O comportamento coletivo, marcado pela desconfiança na mulher, na vítima e a falta de confiança da própria vítima em relação ao cumprimento da Justiça em todas as instâncias promove o silêncio e a impunidade. Esse contexto retrata uma grave crise de conduta e valores na sociedade e autoridades em relação ao assunto.

Medidas Preventivas e Acautelatórias em Relação ao Assunto

O crime de estupro ocorre e tem espaço devido a:

– Mentalidade propalada em todos os níveis da sociedade, de que os homens, na condição de pais, amigos e desconhecidos devem incentivar os jovens a serem “pegadores”, “comedores”, que se não derem vazão aos seus mais baixos instintos e desejos não serão considerados como genuínos machos, dando dúvidas de sua masculinidade;

– Ao espírito competitivo que existe entre os homens de quanto mais mulheres eles transarem mais bem vistos e admirados pelos demais eles serão, pensamento que reforça o argumento anterior;

– Culpabilidade injusta dada à mulher por sua aparência, conduta, forma de agir e vestir.

Estupro é o Crime Traumático E

Devemos mudar a visão e a mentalidade em relação ao estupro. Deve-se eliminar a afirmativa que a mulher é a causadora do estupro. Ela é a vítima, sempre será, no início e final das contas. Há que se fazer uma mudança na cultura, na mentalidade e pensamento da sociedade e das autoridades.

A mudança dessa cultura nociva deve ser realizada na raiz do problema. O diálogo sobre o assunto deve ser aberto, amplo e irrestrito no seio da família, apesar da aversão que possa surgir pelo homem-pai. Orientações a serem dadas:

– O filho deve ser orientado a não praticar esse ato criminoso, por sua natureza danosa e irreparáveis efeitos na qualidade de vida e saúde mental da mulher ultrajada, bem como se a vítima for outro homem;

– O filho deve entender que a mulher estuprada poderia ser sua irmã, mãe, amiga, namorada ou esposa e que ele pense nos irreparáveis danos que ela sofrerá pelo resto de sua vida;

– O filho deve entender que tentar fazer e fazer sexo a força não significa atestado de masculinidade, mas sim de monstruosidade, de falha de caráter e conduta;

– O filho deve entender que o sexo só deve acontecer quando os dois querem, estão a fim de transar;

– A filha deve ser orientada a não ocultar o crime caso ele venha a acontecer, em qualquer época ou momento. Que ela deve se preparar para os fatos subsequentes que lhe ocorrerão e que terá o apoio da família, gerando assim, de maneira subliminar, confiança recíproca que a levará a seguir as orientações dadas;

– A filha deve ser orientada a não se expor em demasia a parentes, amigos, vizinhos e desconhecidos sem, no entanto, perder sua identidade e liberdade;

– Como a filha não deve perder o controle da situação quando a bebida alcoólica estiver presente;

– Não culpá-la caso o estupro venha a acontecer, mas sim apoiá-la, ajudá-la a administrar os danos causados em sua mente e corpo.

Estupro é o Crime Traumático F

Benefícios que Este Conteúdo pode Proporcionar ao Leitor

Mudar a mentalidade, o pensamento de uma “cultura” que impregna a sociedade há anos é difícil, custoso, mas não impossível. Deve-se abrir o diálogo, manifestar apoio e acompanhamento da vida do jovem e do adulto, sem constrangimento ou medo da reação dos filhos. Eles normalmente estão mais preparados para abordagem de assuntos delicados do que os pais.

Devemos orientar nossos filhos em relação ao estupro, mas não criando um ambiente de medo ou terror. Devemos orientá-los a viver suas vidas em plenitude, gozando dos prazeres do sexo, da liberdade de ir e vir, da forma livre de vestir, contudo que eles sempre estejam alertas e atentos ao contexto do estupro, não abrindo espaço e oportunidade para que ele ocorra em função dos graves danos posteriores.

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Robert

Robert Thomaz é escritor, poeta, autodidata, pesquisador, blogueiro. Dedica-se ao estudo e pesquisa de assuntos relativos à qualidade de vida, relacionamento intrapessoal, relacionamento interpessoal, saúde e bem-estar.

Website: http://sentimentoseletras.com.br

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