Violência doméstica: Saiba o que é, como é e que defesa executar

Observe os seguintes casos:

“Ela estava sentada na sala da pequena casa, com as mãos unidas sobre o colo. O olhar umedecido frequentava o velho relógio sobre a estante corroída pelos cupins. Uma forte tensão lhe percorria todo o corpo. Só de pensar se ela não estivesse ali, sentada e de banho tomado no horário determinado por ele, já lhe causava arrepios. As crianças sempre deveriam estar dormindo para não incomodá-lo. Ele era um homem trabalhador e merecia sossego na chegado do trabalho. Súbito a porta se abriu. A fisionomia carrancuda do marido fixou-se no olhar sempre entristecido.

– A comida está pronta?! – indagou ríspido.

– Sim, sim, já está pronta…

– Tá esperando o quê?! Vá logo servir! Vai fica rolhando para minha cara!

Ela levantou-se rapidamente e foi para a cozinha. Voltou e serviu-lhe o jantar. Ele comeu a primeira garfada e passou a respirar rapidamente, tornando a fisionomia agressiva.

– Que porcaria de comida é essa mulher?

– É a comida que você gosta… é bife, com cebola, batata…

– Cala a boca! Vagabunda! – bradou o marido arrastando a cadeira para trás para, em seguida, desferir-lhe um forte murro que a arremessou contra a parede mais próxima. A mulher tombou, com um filete de sangue a escorrer-lhe do canto da boca.”

 – xxx –

“A mulher já algum tempo estava se envolvendo com um ex-namorado. O casal tinha um par de filhos e o marido não ia ceder ao divórcio porque era um bom marido, cumpridor de seus deveres como homem e chefe de família. Entretanto, ela queria viver outra vida. Queria frequentar a noite, gozar dos prazeres da vida, vestir roupas melhores e estava cansada de ouvir: ‘O dinheiro está quase acabando… desculpe, mas não vai dar para comprar aquele vestido que você me pediu…’. Ele estava dormindo pesadamente. Ela abriu a porta de frente e o ex-namorado entrou. A mulher indicou a porta do quarto do casal. Ela saiu portando todo o dinheiro do pagamento que havia na carteira do marido e o ex-namorado, portando um pedaço de pau, dirigiu-se para o quarto. Seria realizado “o teatro de um assalto” no qual o marido seria espancado brutalmente pelo suposto ladrão (ex-namorado) que fugiria em seguida. Não queriam matá-lo, mas deixá-lo ‘assustado’. Esse era o objetivo da trama.”

– xxx –

Realmente fiquei vivamente impressionado quando fiz a pesquisa para criar este conteúdo que aborda a violência doméstica. É tão amplo o espectro de fatos e efeitos que envolvem o assunto que fiquei pasmo com o que descobri e que irei compartilhar com você.

Violência Doméstica A

Violência Doméstica: O que Realmente É…

Esse gênero de agressão abrange homens, mulheres, crianças e idosos. Sim, todos estes elementos de nossa sociedade, de uma forma ou de outra, são vítimas deste crime de natureza extremamente cruel que não figura nas revistas, manchetes ou jornais televisivos. Não vou abordar dados estatísticos em vista que não é foco deste conteúdo, embora não faltem dados a respeito.

A violência doméstica compromete sensivelmente o desenvolvimento físico e mental daqueles que são suas vítimas. Sua ação danosa é expressiva e muito ampla, destacando-se pelo sofrimento silencioso do indivíduo afetado quando não ocorre seu óbito.

Cabe destacar a que a principal causa de morte entre crianças e adolescentes, na faixa de 05 a 19 anos de idade, é a violência doméstica.

A violência doméstica conceitualmente é um gênero de violência praticamente no contexto familiar. Pode ocorrer entre pessoas consanguíneas (com laços de sangue – pais e filhos) ou unidas de forma civil – marido e mulher, genro ou sogra.

A violência doméstica pode ser física, emocional ou psicológica e verbal. Veremos adiante cada uma destas modalidades.

Qualificação das Vítimas

Quando adulto, a vítima apresenta baixa autoestima, é imatura emocionalmente e depende financeira ou emocionalmente daquela pessoa que a agride. Em alguns casos, a vítima não percebe que se encontra acorrentada à relação que tem com o agressor, vendo-o não como algoz, mas como “salvador de sua desgraça”.

Invertendo os papéis, o agressor acusa a vítima de ser a real responsável por seu comportamento agressivo, fazendo-a sentir-se culpada e acometida por grande vergonha perante a ele. Por outro ângulo, a vítima se sente violada e traída pelo fato do agressor alegar que não vai repetir seu ato execrável e depois novamente repeti-lo.

Existem casos em que a vítima deste tipo de agressão aceita plenamente sua situação e se vê incapaz de se desligar daquele ambiente desconfortável em que vive devido a razões financeiras ou emocionais. Esse gênero de personalidade comprometida com o erro vive uma espécie de co-dependência semelhante à observada em alcoolistas e dependentes químicos.

Sendo criança ou adolescente o caráter da agressão se agrava pelo fato dela (e) estar em fase de desenvolvimento físico e mental. É na infância e adolescência que a personalidade do indivíduo é formada, estruturada. Em função desta premissa todo e qualquer fato que possa macular sua consciência terá reflexo na fase adulta, possibilitando o desenvolvimento de uma personalidade agressiva e opressora à semelhança do seu pregresso agressor.

Classificação da Violência Doméstica

A violência doméstica pode ser classificada em física, psicológica ou emocional e verbal.

Violência Física

A violência física se caracteriza pelo emprego da força objetivando ferir a vítima, deixando marcas ou não. A agressão é desferida através de murros, tapas, chutes, golpes com objetos diversos e a prática de queimaduras com objetos ou líquidos quentes.

As mulheres são as mais agredidas, seguidas das crianças, adolescentes, idosos e os homens.

Violência Psicológica ou Emocional

A violência emocional ou psicológica consiste numa terrível agressão possivelmente mais prejudicial que a física. Sua ação destruidora e predatória não deixa indícios físicos, porém suas cicatrizes são indeléveis, marcando emocionalmente a personalidade e consciência daqueles que são suas vítimas. Ela se caracteriza pela rejeição, humilhação, discriminação, depreciação, desrespeito e punições exageradas.

Umas das formas mais cruéis da violência psicológica, que também pode ser chamada de agressão emocional, constitui-se no agressor agir de maneira dissimulada fazendo com que sua vítima sinta-se inferior, dependente, culpada ou omissa nas situações que vivenciam.

Outra forma de agressão emocional impregnada de violência ocorre quando o agressor faz suas ações de maneira correta, impecavelmente não visando ensinar sua vítima, mas para lhe mostrar a grandeza de sua incompetência, de sua ausência de qualidades e virtudes, despertando-lhe ainda mais a sensação de culpa, de inferioridade.

O agressor com o perfil acima tem prazer quando sua vítima se sente inferiorizada, diminuída ou incompetente. Esse tipo de agressão emocional ocorre entre pais e filhos, quando estes não estão se comportando como desejam ou da mulher em relação ao marido e vice-versa no relacionamento abusivo.

Violência Verbal

A violência verbal ocorre normalmente junto da violência psicológica. Comumente se verifica a ocorrência de agressores verbais focando suas ofensas contra outros membros da família além de sua vítima. Este fato também ocorre quando na presença de pessoas estranhas ao lar.

A mulher em decorrência de sua menor força física e da expectativa da sociedade em relação à violência masculina tende a se especializar na violência verbal. Porém não é exclusividade das mulheres esse tipo de agressão.

Normalmente, como efeito de complexos e conflitos psicológicos, agressores verbais infernizam a vida de suas vítimas querendo ouvir, obsessivamente, confissões de fatos que elas não cometeram como, por exemplo: “Você olhou para Fulana (o)…”; “Fale a verdade, você deu em cima de Sicrano (a)…”, criando desta maneira uma tortura sem fim.

Outros casos de violência verbal são verificados quando ao agressor executa a depreciação da família e do trabalho de sua vítima; quando maridos e esposas costumam ferir-se moralmente insinuando que o outro tem um (a) amante. Inúmeras vezes a intenção dessas acusações é abalar emocionalmente o outro, fazendo-se sentir-se diminuído (a).

Violência Doméstica C

Identifique se a Pessoa que você Convive é um (a) Agressor (a)

Como identificar se você sofre violência doméstica? Como saber se você é vítima de um agressor em seu lar? Responda ao pequeno questionário abaixo.

Caso você responda positivamente a pelo menos três perguntas é bem possível que seja vítima de um agressor.

– A pessoa que convive com você…

A – Frequentemente a agride?

B – Acusa constantemente de ser infiel?

C – Priva-a de estudar, de trabalhar?

D – Implica com sua família?

E – Restringe ou impede de ter amizades?

F – Critica-a por pequenas coisas?

G – Controla as finanças, obrigando a comprar somente o que ela quer?

H – Humilha-a na frente de outras pessoas?

I – Agride ou espanca seus filhos?

J – É agressivo quando está bêbado ou drogado?

K – Destrói objetos pessoais e de valor sentimental?

M – Usa e/ou apontou alguma arma contra você?

N – Obriga a ter relações sexuais contra sua vontade?

Violência Doméstica D

A Primeira das Defesas contra a Violência Doméstica

As mulheres são vítimas na maioria dos casos (84,3%). Os agressores em sua maioria são homens na qualificação de marido ou ex-cônjuge (67,4%). De forma impressionante é a dependência emocional mais do que a financeira que compele a mulher a suportar e sujeitar-se às agressões.

Apesar dos fatores contrários ao assunto, pesquisas realizadas no exterior e no Brasil revelam que a denúnciaapresentação de queixa numa delegacia e sua consequente represália da autoridade policial – faz cessar a ocorrência de agressões subsequentes.

Diante da constatação realizada, um dos caminhos a seguir visando acabar ou minimizar a violência doméstica é a denúncia. Apesar de alguns desdobramentos negativos que podem ocorrer veja algumas consequências positivas:

  • Torna a agressão pública, identificando o agressor;
  • A notoriedade da agressão causa um abalo ao agressor por tirá-lo da redoma da impunidade;
  • A denúncia é uma maneira de constranger o agressor perante parentes, vizinhos e sociedade;
  • Existe uma boa possibilidade de cessar as agressões.

Violência Doméstica E

Ações Defensivas para Beneficiar as Vítimas

Não é fácil livra-se do círculo vicioso da violência doméstica, principalmente quando existe a dependência emocional. Foquemos na mulher. A vítima sofre agressões diante de seus filhos e vive uma vida de amarguras e sofrimentos sem fim. Como livrar uma mulher e seus filhos – quando ela realmente quer ser livre e feliz – desse algoz?

Que a denúncia inicialmente parta dela. Caso não, que parentes ou vizinhos assim procedam em ato de empatia e solidariedade. O agressor não pode ficar impune e continuar suas atrocidades.

Mas se a denúncia não resolver a violência doméstica? E se as agressões continuarem? E se o agressor aumentar sua ação violenta e surgir a possibilidade de homicídio por parte dele? O que deve fazer a mulher? Quem vai resolver seu problema?

Se a mulher não tem como viver sozinha ou para onde ir devido à dependência financeira que está submetida, que ela use do subterfúgio de planejar sua fuga e evasão do agressor.

É lícito sugerir isso? Talvez não seja, contudo quem vive esse tipo de situação agonizante deve ter uma oportunidade de viver feliz e este conteúdo visa isso, promover a chance de uma nova vida a mulheres agredidas e seus filhos dentro daquilo que deveria ser o seu lar e não o seu cárcere.

Veja uma sugestão de plano de fuga para a mulher em situação de violência doméstica:

1 – Crie um fundo de reservas para sua ação, guardando todo dinheiro que puder em local desconhecido pelo agressor.

2 – Vá separando e guardando em local desconhecido suas roupas e dos filhos, para a nova vida que deverá ser em cidade e Estado distantes de onde você reside.

3 – Não pense em malas grandes. Preferencialmente não leve objetos. Eles pesam e atrasam a fuga. Leve apenas roupas e calçados necessárias para sua sobrevivência inicial;

4 – Planeje sua fuga com cuidado e em detalhes;

5 – Não avise a parentes e nem a vizinhos seu plano e o local exato para onde irá. Infelizmente a nova vida será em solidão, sem contato com parentes e amigos. Porque isso? O agressor pode agredir uma destas pessoas até que ela diga o paradeiro da mulher em fuga ou residente em local distante.

6 – Não deixe rastros de seu plano. Não faça buscas ou pesquisas sobre seu plano de fuga na internet de sua casa. Qualquer coisa que escrever – queime antes de sair.

7 – Não vá direto para onde vai residir. Planeje um itinerário de fuga e permaneça alguns dias numa cidade distante de onde mora. Depois viaje para o local onde irá morar definitivamente.

8 – No local de destino nunca diga de onde veio exatamente, mas sim de outro lugar. Não deixe que fiquem informações avulsas a seu respeito pela cidade onde passou a residir.

Robert Thomaz

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Robert

Robert Thomaz é escritor, poeta, autodidata, pesquisador, blogueiro. Dedica-se ao estudo e pesquisa de assuntos relativos à qualidade de vida, relacionamento intrapessoal, relacionamento interpessoal, saúde e bem-estar.

Website: http://sentimentoseletras.com.br

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